sexta-feira, 13 de julho de 2012

História de uma caricatura



Em 1983 produzimos em Atibaia um jornal chamado Carta de Atibaia. O Pasquim ainda era modelo para quem quisesse fazer jornalismo sem paletó e gravata. A intenção era produzir um jornal descontraído, que refletisse as novas dinâmicas da cidade, através do humor, do comentário, da entrevista  e da opinião, coisas que não haviam nos jornais locais da época. É bom lembrar que foi um ano importante para a cidade com o Tombamento da Pedra Grande pelo Condephaat, resultado de intensa mobilização social e, senão o primeiro, um dos primeiros movimentos ecológicos com resultados práticos do Brasil.  Naquela época computador era coisa de ficção científica e um jornal se fazia na raça. Não era como hoje, que podemos realizar um jornal inteiro em nosso computador caseiro e depois mandar um PDF pra gráfica. Poucos lugares dispunham de equipamentos para rodar um jornal, e Carta de Atibaia era feito na cidade vizinha de Bragança Paulista, pagando-se por hora, daí a pressa em fechar a edição e seguir logo para a gráfica. Lembro que nosso período começava no final da tarde de determinado dia da semana e só terminava no dia seguinte, quando deveria estar tudo pronto para ser impresso. E assim foram seis noites que varamos em claro procurando letras em revistas, recortando, colando para montar novos títulos, ou então desenhando, "passando branquinho", etc. Esse trabalho era chamado paste-up, uma das atividades extintas pela tecnologia digital.

O Carta de Atibaia foi concebido pelo Euclides Sandoval, o grande mentor da história, com a ajuda do Fábio Napolitano, que financiou o jornal. A diagramação era minha. Havia outras pessoas envolvidas, como o Denizar Sandoval cobrindo as notícias da câmara, entre outros. Embora durando somente seis edições, esse jornal foi uma grande escola pra mim.  Uma das coisas que fiz lá foi a caricatura de um vereador da época chamado Gaspar Camargo. Havíamos feito uma entrevista enorme com ele, que durou quatro horas de gravação e que depois foi "espremido" em duas edições, com letras minúsculas ( Pensando bem, acho que nem ele conseguiu ler aquilo). Essa caricatura ganhou destaque nas páginas do jornal e ironizava suas inúmeras façanhas com medalhas no peito feitas com tampinhas de garrafas. Imaginava que ele não iria gostar da brincadeira, mas para minha surpresa aconteceu o inverso. Foi o primeiro acontecimento em que ganhei certa notoriedade. Andava pela cidade e via o recorte do meu desenho pendurado nos lugares mais estranhos. Claro que a timidez não permitiu que me identificasse nesses casos, mas intimamente ria do que havia feito. Esse recortes permaneceram por muito tempo em determinados lugares, a ponto de um dia, muito tempo depois, entrar no gabinete de outro vereador e encontrar ainda lá minha caricatura fixada num mural , já amarelada pelo tempo. Desde então penso muito antes de fazer a caricatura de alguém, principalmente de político. Eles adoram ver suas caras estampadas nos lugares, nem que seja de forma ironizada. É o famoso "falem mal, mas falem de mim". Como faço caricatura somente como exercício gráfico, portanto sem compromisso com pautas, prefiro desde então outros temas bem mais interessantes para praticar, mas claro, toda regra tem exceção. E como escreveu Millôr Fernandes: Se toda regra tem exceção, então, esta regra também tem exceção e deve haver, perdida por aí,uma regra absolutamente sem exceção.

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